Atravessou a rua sem desespero, mas com prontidão. Sexta-feira. A semana acabou. Que nada, estava só começando!
Quase perdera o ônibus, mas o motorista reconheceu o erro da vez passada, e parou hoje no ponto direitinho. Na rua, perto de sua casa, já estavam elas todas assanhadas esperando-o. À medida que ele se aproximava do portão, os olhos delas saltavam de ansiedade, seus corpos exalavam talvez um desejo profano- mas é melhor nem comentar. Ele, muito educado, acenou para as moças do portão, que mais pareciam tietes, e entrou.
Dali a pouco, saia, com a roupa bonita e muito bem passada. O cabelo ainda molhado com o gel que manteria o penteado durante a noite, e é claro, o toque especial e que faz toda a diferença, o perfume. Seguido pelas moças das mais variadas idades, cores, pesos, rostos e bocas, ele ia rumo à alegria da noite, a alegria da vida – naquele tempo.
Quando chegava ao salão, os olhares eram lançados. Ele escolhia a primeira para seus pés acompanharem. No ritmo quente da lambada, seu corpo escolhia o conjunto de mulher. Sim, porque o rosto também conta e muito.
Num pique sem hora pra acabar, ele embalava no som, no entrelaçar de pernas e coxas, no desenlace dos braços e no movimento dos olhos de seu par. Gostava de dançar. Mexia-se a noite inteira. Chegava a suar.
Finalmente sentou. Rendeu-se ao cansaço, que hora ou outra, é inevitável.
O Don Juan do baile já não tinha forças nem sequer para erguer a cabeça, as mãos estáticas não conseguiriam segurar um copo sequer.
Mas sabeis, leitores, que há coisas nesta vida, que precisam de estímulo. Uma das que o encaravam durante o baile, comentou:
- Nossa! Ele se sentou, que milagre!
A outra disse:
- E tá com um perfume! Que cheiroso!
De repente, levantou-se renovado. Puxou mais uma pra roda. E foi, nos contrapassos do salão, que se realizou.
A verdade é que não são só as mulheres que gostam do que ouvem.
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