Floresceu. E Pedro nem percebera. Quando se deu conta, já estava levando-a em seus braços para o altar.Sentia as mãos estremecidas daquela menininha que tinha medo do escuro, mas que agora, ansiosa,não sentia medo e sim, uma felicidade nervosamente visivel; mas ele tinha a feição oblíqua, trazia um ar de desespero e no fundo um pouquinho de alegria.
Oras, todo pai que se preze nunca se conforma absolutamente quando tem de se despedir da filhinha.
A cerimônia: o desfile de pai e filha pelo corredor da igreja, cercado de olhos curiosos. Todos eram testemunha da frustração de Pedro.
Os passos eram lentos, singelos e pragmáticos. Ana, ou melhor, para ele "Aninha", nunca olhou-o com tanta intensidade.
E durante aquela curta caminhada, Pedro reviveu em sua lembrança momentos que são mais de vida do que de memória.
-Aninha,eu sempre vou te proteger, minha querida!Era o que ele queria dizer.
A cada passo dado, seu peito fustigava uma dor que não podia ser compensada pela felicidade da filha. Torcia para que o corredor não acabasse, que o altar, o padre e o noivo estivessem cada vez mais distantes.
Sentia-se incapaz, inválido...
Ficou tão nervoso, que pisou sutilmente na barra do vestido. Por um instante desejou que o vestido tivesse rasgado e isso fosse o estopim para adiar o casamento. Ridículo e inverossímel-um pai não pode desejar o mal para uma filha.
"Egoísta, é isso o que eu sou! Preciso aceitar que já está feito, vou entregá-la de mão beijada aquele magricela", refletiu.
Subiu vagarosamente as escadinhas, deu um beijo triste e conformado na testa da menina e um tapinha carinhoso nas costas do genro.
De agora em diante, não seria o mesmo, viveria à espera de ver a filha num almoço de domingo, na ceia do natal ou talvez, no ano novo. No seu aniversário, com certeza, ela apenas ligaria. Meu Deus! Ela está casada...
Não adiantava, Pedro demorou a enteder que o tempo passa e o que foi vivido é único e exclusivamente do passado. O que resta é só o futuro, que é tão incerto e confuso.
"Ela pode ter vários filhos e não ter tempo de cuidar.Ótimo, as crianças podem ficar lá em casa enquanto ela trabalha, passar as férias comigo. Ou quem sabe, ela não se separa deste paspalho e volta para casa!
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